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Resenha | MEMÓRIAS DE MARTHA, de Júlia Lopes de Almeida

Entre as vozes femininas que marcaram a literatura brasileira do século XIX, Júlia Lopes de Almeida se destacou por sua escrita envolvente e crítica à condição da mulher em uma sociedade patriarcal.



Com uma lista totalmente atualizada de livros obrigatórios, contendo apenas obras de autoria feminina, a Fundação Universitária para o Vestibular (FUVEST) traz Memórias de Martha, de Júlia Lopes de Almeida, autora que nasceu no século XIX lutou pela causa abolicionista e apesar de ter feito parte do grupo de autores que fundou a Academia Brasileira de Letras (ABL), ela não entrou para o hall de imortais da casa. A justificativa: Ser mulher.


E é justamente por esse apagamento na vida e obra da autora, que a FUVEST trouxe seu nome para a lista de obras para o Vestibular 2026, além de outras mulheres que o tempo quis apagar da história e agora são revividos através do Vestibular da USP. A obra de Júlia, não é a mais famosa, mas com essas razões para seu nome estar na lista, Memórias de Martha é o livro certo para estar entre os selecionados do ano.


Memórias de Martha é um romance essencial para compreendermos os dilemas femininos da época em que foi publicado, 1899, pois nos apresenta a trajetória de uma protagonista que luta contra as imposições sociais e familiares. A narrativa confessional, estruturada em forma de memórias, permite ao leitor mergulhar na complexidade psicológica da protagonista, uma mulher que desafia silenciosamente as normas que a aprisionam.


A história gira em torno de Martha, uma jovem criada para cumprir o papel esperado de filha, esposa e mãe, sem espaço para seus próprios sonhos. No entanto, desde cedo, a personagem revela inquietações e uma vontade latente de romper com as expectativas impostas.


Seu embate com a rígida Dona Mariana, sua madrasta, simboliza a luta contra a autoridade feminina que, paradoxalmente, reforça os valores patriarcais. Já a relação com Padre Anselmo evidencia o papel da religião na manutenção das estruturas opressivas. Entre os homens que cruzam seu caminho, estão Henrique e Antônio.


Enquanto o primeiro aparece como um possível refúgio afetivo, o segundo representa o modelo masculino dominante. Mas a realidade imposta a ela a impede de viver um amor com Henrique e Antônio tem um pensamento totalmente oposto às vontades da protagonista, mas é com quem se casa.

 

"O mundo esperava dela a resignação silenciosa, mas Martha queria mais do que suportar: queria viver, ainda que contra as regras que lhe impunham."

p. 128

 

A tensão central da obra está no conflito entre desejo e dever. Martha anseia por liberdade, mas é constantemente barrada pelas obrigações sociais. Seu casamento, visto inicialmente como uma possibilidade de felicidade, se torna mais uma forma de aprisionamento.


A solidão se intensifica, e a protagonista se vê diante de um destino infeliz, algo comum a muitas mulheres de sua época. Nesse ponto, Júlia Lopes de Almeida constrói uma forte crítica à falta de autonomia feminina, algo que ecoa em autoras como Jane Austen e Charlotte Brontë, que também exploraram o dilema da mulher confinada por padrões opressivos.


Se compararmos Memórias de Martha a outras obras da autora, como A Falência, seu grande best-seller, percebemos um foco maior na psique da personagem, tornando o romance um estudo profundo sobre as emoções e frustrações femininas.


Autora Júlia Lopes de Almeida


Enquanto A Falência retrata os impactos do capitalismo no destino das mulheres, Memórias de Martha enfatiza a solidão feminina e a impossibilidade de realização pessoal dentro das estruturas da época. Assim, a obra não apenas reflete as dores de uma personagem, mas denuncia uma sociedade que, à época, negava às mulheres qualquer possibilidade de autodeterminação.


Logo, para os mais jovens, a obra é um tanto quanto atual, para que esse menosprezo à mulher retorne para nossa sociedade e uma oportunidade de compreender criticamente a literatura como instrumento de reflexão social.


O livro Memórias de Martha, de Júlia Lopes de Almeida está disponível para compra na AMAZON e é leitura obrigatória para o Vestibular da USP, a FUVEST - 2026.


Abraços Literários,


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